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Alquimia
ARTIGO: DAS BETERRABAS PARA AS VARAS DE PESCAR

LUÍS FERNANDO PEREIRA
Especial para a Folha de S. Paulo
29/01/2004
Editoria: FOVEST Página: Especial-6
Edição: São Paulo Jan 29, 2004
Seção: VALE A PENA SABER


   Domingão de pescaria! Nesse calorão, pode ser uma boa. Depois, pegando ou não algum peixe, você, como um bom pescador, pode sair por aí contando que pegou um pintado de 40 quilos! Se perguntarem: "Mas a linha não quebrou?". Você responde: "Que nada, a minha linha é especial, tem pontes de hidrogênio!". É verdade que vão achá-lo um pouco estranho... Mas o que você disse também é verdade: o náilon tem mesmo pontes de hidrogênio, por isso ele é tão forte.

   A história do náilon começa nos anos 30, quando o grupo do químico W. Carothers, das indústrias Du Pont, procurava um polímero artificial que substituísse a seda. Só que vários deles já haviam sido produzidos e rejeitados, inclusive o próprio náilon, que estava abandonado em um canto do laboratório. Até que, num belo dia, os ajudantes de Carothers começaram a brincar de esticar o náilon até formar um fio bem fininho. Surpresa: esse fio era muito resistente! Pronto, estava criada a primeira seda artificial. Eles, por acaso, tinham descoberto o segredo: esticar o náilon a frio.

   O que acontece é que, na estrutura desse polímero, existem grupos N-H e C=O. Como você sabe, os átomos de N e de O são muito eletronegativos, isto é, atraem elétrons. Isso faz com que eles fiquem carregados negativamente, enquanto os átomos de C e H fiquem positivos. No estiramento a frio, as longas cadeias do polímero são alinhadas de modo que a carga negativa do O de uma delas atraia a positiva do H da cadeia vizinha. Essa intensa força de atração, que "cola" as cadeias, é a tal ponte de hidrogênio. Como são inúmeras pontes de hidrogênio por fio, o resultado é uma tremenda resistência à tração!

   De cara, o náilon foi um sucesso, e ele está aí até hoje. Aliás, você já percebeu que, às vezes, a gente toma pequenos choques ao encostar na lataria de um carro? Culpa de quem? Das roupas de náilon (e de mais alguns fatores, é verdade). Quando elas são atritadas no estofamento, esses ladrões de elétrons --os átomos de N e de O-- colaboram para eletrizar a sua roupa. Aí é só encostar num metal e... choque!

   E o que as beterrabas do título têm a ver com essa história? Para fazer o náilon, utiliza-se uma substância chamada ácido hexanodióico, que, adivinha só, ajuda a dar o sabor das beterrabas! Essa química é mesmo um barato!


Luís Fernando Pereira é professor do curso Intergraus e coordenador de química do sistema Uno/Moderna. E-mail: lula5@ig.com.br