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Por que e como sentimos o cheiro

Faça o teste: coloque uma venda nos olhos de um amigo e leve-o a alguns lugares, pedindo que ele descubra onde está sem tocar em nada, usando apenas o olfato. É bem provável que ele perceba que você o levou a uma padaria, quando aquele cheiro de pão quentinho chegar ao nariz dele. E também deve acertar que foi guiado a uma floricultura ao perceber o aroma das flores. Se não der para sair de casa, experimente pegar algumas frutas, um pouco de pó de café e um sabonete, por exemplo, sugerindo que ele diga o que é o que, colocando à prova a sensibilidade do nariz. Depois dessa investigação olfativa, continue a leitura do texto para saber como o seu nariz pode ser tão perspicaz!

Para que possamos sentir o cheiro de qualquer coisa, é necessário que moléculas dessa coisa cheguem ao nosso nariz. Tudo o que cheiramos, portanto, são moléculas voláteis, ou seja, moléculas que se desprendem – do pão, de uma flor, de uma cebola ou de uma fruta – e flutuam no ar até o nariz da gente. Essas moléculas são chamadas odorantes.

Guarde uma diferença: tudo o que existe é formado por moléculas, mas nem tudo contém essas moléculas que se soltam e levam um aroma qualquer a ser percebido pelo nosso olfato. Um pedaço de metal como o aço, por exemplo, não tem cheiro, porque nada evapora a partir dele. O aço, então, é um sólido não volátil.

Algumas coisas não têm cheiro, outras se destacam pelo bom aroma e outras... Bem, você sabe que não são apenas odores agradáveis que o nosso nariz é capaz de detectar. Mas fica por conta da sua imaginação tudo de fedorento que também somos capazes de sentir. Só é preciso deixar claro que, no caso de odores não agradáveis, o nariz funciona como um sensor para nos proteger de eventuais perigos. O cheiro de fumaça, por exemplo, é o primeiro sinal que sugere a proximidade de um incêndio. O fedor de enxofre exalado por um ovo indica que ele está podre, logo não deve ser comido. E assim vai...

Sabia que emoções também podem ser comunicadas por meio do olfato? É verdade quando dizem que cães e cavalos podem farejar o medo em humanos. Nessas situações, liberamos moléculas, como adrenalina, por meio de nosso suor, que são detectadas pelo olfato apurado desses animais revelando o nosso medo. Para alguns cientistas, as mulheres teriam também narizes sensíveis, sendo capazes de diferenciar, por exemplo, o cheiro de pessoas que estão assistindo a filmes tristes das que estão assistindo a filmes alegres. No entanto, a percepção de aromas não é igual para todos os indivíduos. É comum algumas pessoas serem incapazes de detectar certos cheiros, apesar de detectar normalmente todos os outros.

Cheiro quem sente é o cérebro


Dê uma olhada no esqueleto aí em cima. Repare: no lugar do nariz há dois buracos, que são chamados cavidades nasais. Pois nós temos, atrás desses buracos, dez milhões de neurônios olfativos. Esses neurônios são células do cérebro com longas caudas chamadas cílios que estão em contato direto com o ar que entra pelo nariz. Quando uma molécula odorante se liga a esses cílios, ativa o neurônio e gera a percepção de um cheiro.

Pesquisadores acreditam que os humanos podem discriminar dez mil ou mais odorantes. Mas como o nosso olfato pode detectar um número tão grande de moléculas de cheiro? E como o nosso cérebro pode traduzi-las em uma enorme variedade de percepções diferentes?

Os americanos Linda Buck e Richard Axel ganharam o prêmio Nobel de Medicina, em 2004, por terem explicado como o olfato funciona. O Nobel é uma premiação anual para as pesquisas que mais se destacaram, no mundo, em diferentes áreas de conhecimento.

O trabalho de Buck e Axel para desvendar os mistérios do olfato começou em 1991. Pesquisa daqui, pesquisa de lá e eles descobriram que os cílios de cada neurônio olfativo são recobertos por apenas um tipo de cerca de mil proteínas detectoras de moléculas odorantes. Ou seja: cada neurônio olfativo é ativado por um tipo específico de molécula odorante, assim como as diferentes chaves de um chaveiro se encaixam para abrir diferentes fechaduras.

Ora, se existem apenas mil proteínas detectoras diferentes, como podemos identificar mais de 10 mil odorantes? É que o nosso olfato usa essas proteínas de maneira combinada e, assim, conseguimos perceber uma variedade enorme de cheiros.

Mas o trabalho de Buck e Axel não parou por aí. Eles demonstraram como o sinal detectado no nariz é transmitido para o cérebro. Em primeiro lugar, os sinais são enviados a um local no cérebro que funciona como um centro organizador da informação, o chamado bulbo olfativo. De lá, a informação pode seguir dois caminhos. Um deles é ser enviada para regiões do cérebro consideradas superiores, onde a percepção consciente do aroma é gerada, isto é, detectamos a molécula odorante do café e pensamos imediatamente: “Isso é café.” Mas outro caminho é quando a informação segue para estruturas cerebrais consideradas primitivas, que comandam nossas emoções e memórias olfativas – é mais ou menos quando um cheiro nos faz lembrar de um lugar ou de alguém.

As descobertas de Buck e Axel trouxeram informações pioneiras sobre como nosso cérebro interpreta as informações que estão presentes no meio ambiente. Por meio do estudo do olfato, poderemos compreender como os aromas afetam nossos pensamentos, nossas emoções e nossos comportamentos. Já sabemos um pouco, mas ainda há muito a se descobrir!

Bettina Malnic
Departamento de Bioquímica,
Instituto de Química,
Universidade de São Paulo.