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Entenda como o estômago desses animais é capaz de 'mastigar' os alimentos!

Nem quando a galinha criar dentes!" Já ouviu esta frase? Ela é usada para expressar algo absurdo. Quando pronunciada, fica bem claro que o fato nunca vai acontecer. É uma frase bem bolada, porque as aves jamais criarão dentes. Sabe por quê?

Na verdade, as aves de hoje é que não têm dentes. Elas perderam os dentes ao longo da evolução, que é o processo de modificação das espécies ao longo do tempo. Mas seus ancestrais -- pequenos dinossauros corredores, aparentados ao Tyrannosaurus rex, e grande parte das espécies de aves já extintas, como o Archaeopteryx lithographica, a ave mais antiga de que se tem notícia -- tinham dentes.

E por que as aves perderam os dentes? Elas têm bicos que têm a função de capturar o alimento. Dependendo da ave e do seu cardápio, o bico tem diferentes formas. Nas aves comedoras de grãos, como os curiós, o bico é grosso para poder quebrar as sementes; nas comedoras de insetos, como os bem-te-vis, ele é chato e rodeado de grandes bigodes, que ajudam a encurralar os insetos; nas carnívoras, como os gaviões, os bicos são cortadores, para arrancar pedaços de carne de outros animais; finalmente, nas piscívoras, como as garças, o bico tem forma de lança para capturar peixes.


Os mais curiosos devem estar se perguntando: e como as aves mastigam o alimento sem ter dentes? Anotem, então! Elas têm um estômago que substitui o trabalho dos dentes. Em geral, o estômago das aves é dividido em duas partes. A primeira é o estômago químico, é onde a comida recebe uma grande quantidade de ácidos chamados enzimas digestivas, que começam a dissolver os alimentos. De lá, o alimento passa para a moela, que é cheia de músculos fortes, capazes de triturar tudo o que a ave come, substituindo o mastigar dos dentes. Assim, só nos resta uma conclusão: as aves não têm dentes porque elas têm a moela! Mas as perguntas nunca acabam: quer dizer que tudo o que é inútil desaparece ao longo da evolução? Ou tudo que desapareceu era inútil quando existia? As respostas, se é que elas existem, são temas para outro dia de conversa!

Ciência Hoje das Crianças 146, maio 2004
Marcos Raposo e Renata Stopiglia
Setor de Ornitologia,
Museu Nacional/UFRJ.